Revista Vertigem

O que não te disseram sobre o que você já ouviu

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O fim do “Movimento corpo livre”: será que paramos de lutar contra os padrões de beleza?

Lorenna Soneghetti

21/07/2025 às 14:20h

Há um mês atrás, a criadora de conteúdo Thaís Carla contou em suas redes sociais que decidiu fazer bariátrica. Essa decisão foi uma surpresa para muitos, pois Thais sempre se posicionou na internet como uma mulher gorda que não precisa emagrecer para ser saudável. Eu, uma pessoa que viveu com muita intensidade os conteúdos sobre autoestima e gordofobia em meados de 2018, não pude deixar de questionar se é honesto crescer na mídia falando sobre corpo e logo depois emagrecer e ao mesmo tempo me repreender, pensando “cada um faz o que quiser com o próprio corpo”. Mas afinal, a gente consegue realmente querer algo para o nosso corpo?

Ao me debruçar sobre essa questão, eu encontrei algo engraçado: um texto da influenciadora Alexandra Gurgel, fundadora da página “Movimento Corpo Livre”, para O Globo. No texto, Alexandra parece esconder uma defesa das próprias atitudes entre as palavras, trazendo vários exemplos para mostrar que o emagrecimento das influenciadoras gordas não era uma questão de traição ao movimento pois o “corpo livre” também tinha a liberdade de mudar da maneira que quiser. Será?

Eu não quero fazer um juízo de valor aqui, muito menos condenar o emagrecimento de alguém, especialmente de pessoas que foram muito importantes na minha jornada de autoestima, mas após ler o texto eu continuei lamentando o fim de algo que parecia tão bonito, que era poder observar corpos tão diferentes fazendo coisas que sempre disseram que eram apenas para pessoas magras. Vale também ressaltar que muitas dessas criadoras não deixaram de ser mulheres gordas, mas ainda sim emagreceram e fizeram questão de ressaltar que foi “por saúde”. E aí que entra o meu limite em relação a isso: como o discurso de “eu não preciso emagrecer para ser saudável” mudou para o “emagreci por saúde”?

Esse assunto me colocou em um looping de nostalgia e eu passei a revisitar algumas páginas da época: Caio Revela, conhecido por falar sobre as vivências de ter um corpo gordo na internet, emagreceu e hoje fala sobre sua religião; Beta Boechat, que ainda continua muito presente nas minhas listas de assistidos do youtube, emagreceu e hoje faz vídeos sobre fofocas no instagram; e por fim, o próprio Movimento Corpo Livre, que antes era um projeto com diversas ações para exaltar corpos fora do padrão, hoje se auto-intitula como um “portal de notícias”. Essa mudança de nicho ocorreu, ao meu ver, por um motivo muito simples: amor próprio deixou de ser tendência, e talvez essa seja a grande chave para o fim do “corpo livre”.

A mudança de nicho pode até ser uma mera coincidência, afinal, pessoas mudam. Mas o que é mais curioso nisso tudo é que ao acompanhar esses criadores com mais profundidade, dá pra perceber que muitos deles reproduzem discursos problemáticos em relação a alimentação e até incentivam o uso de alimentos ultraprocessados ditos “saudáveis” que possuem diversas questões em relação a sua real função para uma vida mais saudável. É possível ver diversos “nutricionismos”, ou seja, a troca da palavra “carne” por “proteína”, “arroz” por “carboidrato” e por aí vai.

A verdade é que quem luta de verdade contra a estigmatização do corpo gordo e os padrões corporais da sociedade nunca deixou de existir. Os “corpos reais”, apesar de necessários em um âmbito individualista, foram uma mera tendência que servia para alimentar quem é o motivador de toda a insatisfação corporal do mundo: o capitalismo. As grandes marcas levavam os corpos gordos para perto com o objetivo de criar um case de sucesso ao seguir um assunto em alta, e não porque se importavam de verdade. Quando o capitalismo decidiu que parou de ser legal amar o próprio corpo, as pessoas que mostravam caminhos para o autoamor foram deixadas de lado e forçadas a se abrigar em outros nichos para não perderem o dinheiro no final do mês. 

Enquanto isso, pesquisadoras que lutam contra os ultraprocessados e a culpabilização do indivíduo por problemas de saúde pública, como é o caso da obesidade, permanecem fazendo uma ciência de guerrilha dentro das áreas de conhecimento. Elas podem não fazer fotos de bíquini com seus corpos reais para postarem nas redes sociais, mas elas lutam por uma ciência que não seja tão tendenciosa ao dizer que obesidade é um problema individual. 

Não é o emagrecimento que traz saúde. É o direito de ir a um mercado que vende frutas e verduras frescas, é não precisar ficar 12 horas por dia longe de casa e ter que escolher entre dormir e comer quando chegar, é ter acesso a saúde física e mental em todos os âmbitos, porque comer também é um ato político, e todo ato político perpassa questões de saúde. Por isso, obesidade é uma questão de saúde coletiva, e não sobre um indivíduo que “não consegue fechar a boca”. Se é um fato que esse discurso está adoecendo ainda mais a população, por que ele ainda se repete? Qual o sentido de responsabilizar uma pessoa pela própria doença para fazer com que ela não fique mais doente?

Para quem espera uma resposta, aí está: quem realmente luta pelo fim dos padrões de beleza também luta para o fim do capitalismo. Um movimento que pauta a autoestima das pessoas e trata o corpo como algo individual serve totalmente ao capitalismo. Alimentar um discurso de emagrecimento como sinônimo de saúde, e ainda tratar a própria perda de peso como um assunto individual, mesmo que de maneira inocente, é prejudicial e controverso para esse movimento que já existiu.