No mês de Maio foram anunciadas as novas dinâmicas e atrações do Festival Movimento Cidade (MC) que ocorrerá na Prainha em Vila Velha, Espírito Santo. O festival, que está na sua sétima edição, ganhou cada vez mais público nos últimos anos, trazendo nomes relevantes da música brasileira, e puxando inúmeros capixabas para essa experiência cultural, que conta com exposições artísticas, atividades interativas e muitas atrações musicais. E tudo isso gratuitamente. Até a edição de 2025.
A equipe do festival anunciou que para essa edição do MC, uma nova dinâmica de consumo foi instaurada: para participar de todas as atividades que o evento oferece o consumidor precisará pagar. Isso porque o terceiro dia só poderá ser acessado mediante a compra de ingressos, com valores que vão de R$100 a R$350, nos primeiros lotes oferecidos. Tendo construído uma base forte de consumidores que reconhecem o festival enquanto gratuito, o MC enfrenta agora um novo desafio, e desperta discussões sobre os limites entre a cultura e o consumo.
“Ingresso VIP pra evento cultural? Parece até piada. Enquanto isso, o povo da periferia conta as moedas pra pagar o ônibus e ainda torce pra ter o que comer no dia (…)” é o que diz um dos internautas em um post feito pelo evento na rede social Instagram.
A notícia parece ter desagradado alguma parcela dos frequentadores, que associavam o festival a uma filosofia de democratização da cultura e da arte. O MC ainda conserva parte de seus dias gratuitos, mas a nova dinâmica de pagantes constrói, inevitavelmente, uma segregação entre o público. Dividindo agora os que poderão pagar o ingresso para o terceiro dia, e os que não poderão.
Em entrevista, Gabriely, estudante de 23 anos e consumidora do evento, narra que antes de conhecer o MC não havia tido muitas oportunidades de frequentar shows de artistas que admirava, e que foi a gratuidade do festival que abriu essa porta:
(…) Então, até ter conhecimento da existência do MC, esses eventos eram inacessíveis para mim. Por conta disso, eu curti muito ir ao evento não só por ser gratuito, mas justamente por finalmente estar tendo acesso á esses eventos culturais (que querendo ou não tem a ver com o fato de ser gratuito).
Quando questionada, Gabriely afirma que o valor do ingresso do terceiro dia a impede de comparecer, considerando todos os gastos de locomoção, alimentação, e etc, agregados. Em outro caso, Renata, 22 anos, recepcionista e frequentadora no festival, afirma que anseou por um dos shows pagos, mas que se frustrou ao consultar o valor dos ingressos, percebendo que não poderia arcar com a quantia.
“Estava super ansiosa pra curtir o show da Marina sena, porém com esse valor é impossível. O MC está sendo feito pra quem tem uma condição financeira. Esse ano o MC não vai ter tantas pessoas diversas igual anos anteriores.” (Renata, 22 anos, recepcionista)
Quando procurada sobre o assunto, a organização do evento não retornou, mas apresentou ao público em seu perfil do Instagram algumas justificativas do porquê precisaria adicionar em sua programação uma sessão de “pagantes”, que se dão em função de necessidades orçamentárias. Segundo eles, “(…) o corre cresceu. E com ele, vieram novas ideias, novos rolês e… sim, alguns deles são pagos.”.
A crítica do público quanto às novas propostas do festival revelam o sensível: o capixaba carece de acesso democrático à cultura. São pouquíssimos os eventos abertos ao público na Grande Vitória, ainda mais raros aqueles que contemplam admiradores de grandes nomes da música brasileira, trazendo artistas como Liniker, Djonga e Emicida, como o Movimento Cidade trouxe em edições passadas. Parece compreensível que um público tão carente de acessos esteja agora se sentindo “afetado” pela possibilidade de ser, mais uma vez, segregado. O “Viradão Cultural” de Vitória, evento tão estimado por essa mesma bolha de consumidores que demandam festivais gratuitos, parece ter sido definitivamente extinto pela prefeitura da capital. E para eventos como o MC, e o Tenda Lab, também festival de música aberto ao público, fica a responsabilidade de suprir inúmeras carências culturais de uma população que enxerga nesses espaços uma oportunidade, e talvez a única, de consumir cultura e lazer da maneira que pode acessar – gratuitamente.
Segundo a socióloga urbana Manuela Blanc, doutora em Sociologia Política, o recém requalificado espaço da Prainha, onde ocorrerá o festival, é dotado de disputas narrativas e territoriais, uma vez que sua reforma se dá em função de uma nova lógica de ocupação desse espaço. Ela argumenta:
“O projeto de reforma da Prainha reflete a representação simbólica desse território e tem por objetivo restabelecer o acesso privilegiado de determinados grupos a ele, que tem nesse caso um valor histórico-patrimonial e paisagístico, mas também especulatório, e o Estado exerce um papel ativo nesse sentido. Investir na prainha, ao invés de investir na periferia, é uma escolha político ideológica.”
A doutora complementa o argumento, ao dizer que quanto mais disputado um território, maior a possibilidade de exclusão de populações minoritárias.
O festival Movimento Cidade carrega seu compromisso com a comunidade, mas não está nem perto de ser responsável pelas lacunas abertas do cerne da questão. Esse caso em específico revela uma série de movimentações coordenadas que subjugam populações em desvantagem social, em sua maioria pobres, negros e indígenas, às periferias de suas cidades. Importa direcionar a revolta a quem de fato a pertence, questionando, principalmente ao estado, onde estão os eventos públicos direcionados a essa comunidade? E a quem interessa extingui-los?