Revista Vertigem

O que não te disseram sobre o que você já ouviu

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A importância da memória: os 61 anos do início da Ditadura Militar no Brasil

Victoria Ferro

21/04/2025 às 13:14h

O lançamento do longa-metragem ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional, Ainda Estou Aqui, foi responsável por movimentar diversas discussões a respeito dos Anos de Chumbo da Ditadura Militar, tanto nas redes sociais, quanto em outros canais de comunicação, como programas de televisão, podcasts e noticiários. O filme é baseado no livro de memórias do escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do ex-deputado federal Rubens Paiva, que foi assassinado no ano de 1971 pelos agentes do DOI-CODI (Departamento de Operações de Inteligência – Centro de Defesa de Informações).

O sucesso do filme mostrou uma faceta dolorosa da história do Brasil, que condenou diversas famílias ao mesmo sofrimento passado pela família Paiva. Colocado como uma obra forte e comovente, Ainda Estou Aqui é apenas uma dentre as tantas histórias de perda promovidas pela Ditadura Militar.

Apesar do filme não ser a pauta principal da discussão aqui aberta, Ainda Estou Aqui foi crucial para mostrar o poder da memória viva no processo de cura e da importância de nunca deixar o passado para trás, ao contrário do que muitos ainda hoje pensam ser o caminho mais viável para supostamente “superar” o que já passou. 

Diga isso aos filhos, cônjuges, demais familiares e amigos de cada um daqueles que repentinamente sumiram do mapa, e que até hoje, cerca de 40 anos após o fim do regime ditatorial, ainda agonizam em busca de uma solução para o que jamais poderá ser substituído ou reparado.

Diante da impunidade dos agentes da ditadura e das lacunas nunca preenchidas no desaparecimento de centenas de indivíduos supostamente considerados “perigosos” pelo Estado na época, tem sido observado, mais do que nunca, um movimento fortíssimo apoiado por pressão popular e midiática para que haja a correção de certidões de óbito e buscas ainda mais a fundo sobre os sumiços até hoje sem solução. A Comissão Nacional da Verdade está em processo de retificar as certidões de óbito de mais de 314 mortos pela ditadura, finalmente escancarando o óbvio: as mortes não se deram por causas naturais.

Será coincidência entre as partes o fato de Ainda Estou Aqui ter sido lançado em Novembro de 2024 e, magicamente, o Conselho Nacional de Justiça aprovar uma resolução que determina que todos os cartórios de todo o país retifiquem as certidões, logo em Dezembro de 2024?

A resposta a esse questionamento, sendo positiva ou negativa, nos desperta para o fato de que a comoção causada pelo resgate das memórias da família Paiva – tanto as afetivas quanto as traumáticas – mexeu com a consciência de todos aqueles que tiveram acesso a elas, fosse no cinema ou na literatura. Isso se desenrolou em discussões, debates, grupos de estudo, matérias e, acima de tudo, no estalo que traz à tona a máxima de Edmund Burke de que “um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la”.

A Ditadura Militar não foi bonita ou louvável. A história não é bonita. Nunca foi. Mas como saber disso quando ela é contada pelo lado que nada perdeu durante o processo? Como saber que toda a moral constituída em torno do militarismo é disfarçada de ética e zelo pela ordem, quando, na verdade, ela apenas preza pelo mascaramento de um conjunto de atrocidades que buscaram – e pelo que vemos hoje, ainda buscam – eliminar tudo aquilo o que é dissonante? 

Falar dessa forma ainda parece um tanto informal, como se estivéssemos falando de números. Mas estamos falando de pessoas, que existiram e que ainda existem na memória de todos aqueles que as amaram e que foram amados por elas. Pessoas que, assim como nós, sentiam amor, ódio, medo, felicidade, tristeza e que, assim como seus entes, sabiam que poderiam não voltar para casa nunca mais. E é justamente nesse sentido que a memória desempenha um papel crucial na produção da nossa sensibilidade.

Quantas vezes nós olhamos para uma foto antiga e, de repente, sentimos um clique que nos transporta de volta para o exato momento em que ela foi tirada? Quantas vezes começamos a devanear quando lemos um diário ou um recado que escrevemos em determinada época de nossas vidas e, do nada, lembramos exatamente do sentimento que nos levou a redigir aquilo? Quando vemos um vídeo, ouvimos uma música específica ou escutamos a voz de alguém em especial e, então, sentimos uma emoção ser acessada nas profundezas da nossa cabeça?

Esse é o papel da memória. Ela não permite que nos esqueçamos daquilo que nos marcou e que nos constituiu como indivíduos. E é essa exata função que ela desempenha em todo e qualquer contexto histórico que nos cerca como sociedade. 

O resgate da memória é doloroso? Sim. 

Mas é uma forma de nos lembrar de tudo aquilo pelo qual pessoas como nós já passaram e nos colocar no lugar delas. 

É uma fonte de raiva, repúdio e aversão para todas as vezes que escutamos alguém pedindo a volta da Ditadura Militar. 

É um alerta para nos fazer enxergar todos aqueles sinais de que estamos nos aproximando de uma nova onda de repressão e que devemos cortá-la pela raiz.